sábado, 3 de setembro de 2011

I. Outono



“É preciso tempo para criar uma criança”. Esta é a primeira frase de Shantala, massagem para bebês, o famoso livro do obstetra francês Friederyc Leboyer, aquele que, nos iêiêiês do século passado, falava de parto humanizado, nascer sem violência – mas isso era coisa de hippie, naquela época. Quando li essas sete palavras, ainda grávida, fez-se um sentido profundo pra mim, em meu peito um impacto silêncio. A verdade delas, Marina, resume boa parte do que tenho a te dizer aqui, de agora ao fim. Esse tempo de que fala o poeta/obstetra não é aquele do relógio, que passa tão rápido que a gente corre desesperada atrás. Ou que passa tão devagar que a gente tenta em vão tanger pra lá. Não, filha. Desse tempo só entende quem se apresenta ao não-tempo – um outro tempo do qual, um dia, uma sábia me falou. Até porque os dois habitam em ambos. O não-tempo é o tempo de que fala o francês, é o tempo que os bebês ensinam e que só acontece dentro de suas mães ou de quem se dedica à arte de cuidar deles – ou a alguma outra arte (ainda que seja a arte de conhecer a natureza ou a si mesmo). É o tempo de sorrir quando você mama que o tempo passa que a gente nem sente. É o tempo de acordar na madrugada e estar pronta pra cuidar de ti, como se o tempo não tivesse passado. É o tempo de, chegada a exaustão física, esperar um tempo, quieta, até passar o cansaço porque você está com a corda toda. É o tempo de te ver, te observar, te ler, te compreender, sem julgar quanto tempo está passando. É o tempo de aproveitar aquele sol, aquele gato que passa na calçada, fica um pouco mais, mãe, que lá vêm os cachorros da vizinha! Marina, esse tempo é todo especial. Quando vim aprendê-lo, você já tinha alguns meses. Quando vim me entender com ele, você já estava com mais de um ano de idade - e ainda assim, vieram outras etapas para entendê-lo melhor. Algumas pessoas confundem esse tempo com o tempo de amamentar de três em três horas (quem foi que inventou esses intervalos de comida, hein?), dar banho, trocar não sei quantas fraldas por dia, levar pra pracinha, dar papinha, brincar na sala, colocar pra dormir. Não, não. Esse tempo aí, não é o tempo do poeta. Não é o não-tempo. Esse tempo aí é o tempo do ritmo do dia a dia, a marca constante dos ponteiros do relógio, aliás, é tempo importantíssimo porque bebê precisa de ritmo mesmo. Esse outro tempo de que agora falo, filha, é o tempo que você me ensinou. Enquanto eu fazia todo o básico (acima), este tempo transfigurava-se, simultaneamente, em algo grande, muito grande e também muito íntimo, acontecendo, austero, dentro de mim, numa velocidade estonteante que nem o tempo consegue parar pra ver. Sim, Marina, esse é o tempo de quem para pra ouvir as plantas crescerem, é o tempo de quem flagra a boquinha de uma lagarta verde comendo uma apetitosa folha também bem verdinha, é o tempo que revela o imperceptível arabesco em alto relevo de uma pétala de flor em aste toda branca, o capricho do sol ao acender o veludo rosa-cintilante da outra pétala, o tucano na amendoeira, o gambá no fio da rua (sempre por volta das sete da noite...), a mãe mico carregando o miquito no mesmo fio do gambá, o ritmo da queda e da renovação das folhas que acompanha as estações – tudo isso eu vi e esse é um tempo que, em silêncio, cresce dentro da gente, mãe, que cria alguém, filho. Sob os auspícios desse tempo você cresceu em mim, nasceu e brincou. Enquanto eu buscava nova morada com seu pai, cuidava de comprar berço, cômoda, arrancava os cabelos em crises de grávida, você crescia dentro do meu útero ou dentro do não-tempo – o tempo em que as grandes coisas do mundo acontecem, entre elas, a formação de um bebê e o surgimento de uma jovem mãe – sempre numa velocidade estonteante. O não-tempo, em verdade, não existe só, porque está em tudo sem nada dizer. Como é ele? Hum... vamos brincar de contar muitas, muitas histórias.

9 comentários:

  1. Aninha, que emoção que você me despertou ao ler esse seu texto! Você me fez chorar um choro de amor pela vida! Um choro de água benta! Muito obrigado, minha amiga, por ter me dado mais esse momento de crescimento! Te amo!
    Seu amigo-irmão
    Carlos

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  2. Um xero acafungado e um abraço bem Aninhado nessa mãe-tempo tnao bela.

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  3. ANA, MAIS UMA VEZ, EM MEIO ÀS MINHAS LÁGRIMAS EMOCIONADAS, COMENTO. SIM, ESSE NÃO TEMPO QUE FAZ O MEU AUGUSTO CRESCER E QUE EU ME PEGO QUERENDO QUE ELE PARE. ELE, O TEMPO OU AUGUSTO? ÀS VEZES FICO PARA TRÁS, QUERENDO MUITO FICAR MAIS TEMPO NA PRACINHA, OU VER AS FOLHAS BALANÇAREM COM O VENTO OU FICAR OLHANDO PARA O MEU AUGUSTO... MAS, O AVASSALADOR TEMPO, DE FAZER COMIDA, LAVAR ROUPA, ENVIAR RELATO, PREPARAR AULA, ETC, ETC... E AINDA MAIS EM SÃO PAULO, QUE ME SINTO COMO QUE SUGADA POR UMA AREIA BEM SECA!QUERIA MUITO TER MAIS TEMPO, TEMPO PRA CRIAR ESSA CRIANÇA ADORÁVEL QUE DEUS ME FEZ RESPONSÁVEL. SINTO CULPA, REMORSO, MAS NOS MOMENTOS QUE ESTAMOS JUNTOS FAÇO VALER A QUALIDADE. E LENDO TUAS PALAVRAS, VOU ME EMPENHAR CADA VEZ MAIS NESTE NÃO TEMPO!
    TE AMO
    ADRIANA

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  4. Manoel de Barros, aquele poeta bem vivido escreveu: "O Tempo só anda de ida." Esta é também a verdade da mãe-filha que vivemos com nossas crias misturadas a nós. Seu tempo é nosso, nosso tempo é delas. E mesmo quando a mãe já é mais filha que mãe, o tempo interno desse elo só tem ida. E assim vamos no nosso tempo-riacho, lambendo as pedras, levando as folhas. Indo. O tempo nos leva. Abençoadas as que vivem esse tempo assim como você: sorvendo a vida que ele carrega na ida.
    Agradeço pelo momento soberbo que me oferece com tua escrita. Amor da sua Irène

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Ana, Saramago fala que "atrás de tempo, tempo vem!" E lendo o texto, percebo você preparando o tempo de Marina. Um tempo tão maternal, tão profundo, que só pode mesmo ser chamado de amor.

    Lindo !

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  7. Amor,
    Tenho ouvido suas histórias
    Tenho vivido suas histórias
    Tenho aprendido com você esse não tempo que você tem aprendido com Marina
    Você tem me ensinado a ficar com os olhos mais abertos
    Os ouvidos mais atentos
    O coração mais vivo
    A Alma mais plena
    Eu, você e Marina.
    Que Maravilha fazer parte dessa história!!
    Te amo hoje amanhã e sempre.

    Teu Felipe

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  8. Anita, voce realmente está uma revelação como escritora...Lindo!
    Muito gostoso de ler e muito gostoso de sentir o que voce escreve..viajei...
    Pra mim o mais lindo é voce ter conhecido mais intimamente o não-tempo através da Marina. Acho que a criança realmente "vive" o não tempo, e mostra em detalhes toda essa intimidade. Percebe, sente e ve sem nada que impeça tamanha percepção, tamanha beleza..sem cortes e sem censura.
    A cada dia sua filhota está mais linda e mais querida!! Parabéns Anita grande beijo Celinha

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  9. Adorei!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Beijos,
    Milede.

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